Mostrar mensagens com a etiqueta antónio. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta antónio. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Calçada de Carriche

Luísa sobe,
sobe a calçada,
sobe e não pode
que vai cansada.
Sobe, Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Saiu de casa
de madrugada;
regressa a casa
é já noite fechada.
Na mão grosseira,
de pele queimada,
leva a lancheira
desengonçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Luísa é nova,
desenxovalhada,
tem perna gorda,
bem torneada.
Ferve-lhe o sangue
de afogueada;
saltam-lhe os peitos
na caminhada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,

sobe que sobe,
sobe a calçada.

Passam magalas,
rapaziada,
palpam-lhe as coxas,
não dá por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Chegou a casa
não disse nada.
Pegou na filha,
deu-lhe a mamada;
bebeu da sopa
numa golada;
lavou a loiça,
varreu a escada;
deu jeito à casa
desarranjada;
coseu a roupa
já remendada;
despiu-se à pressa,
desinteressada;
caiu na cama
de uma assentada;
chegou o homem,
viu-a deitada;
serviu-se dela,
não deu por nada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Na manhã débil,
sem alvorada,
salta da cama,
desembestada;
puxa da filha,
dá-lhe a mamada;
veste-se à pressa,
desengonçada;
anda, ciranda,
desaustinada;
range o soalho
a cada passada;
salta para a rua,
corre açodada,
galga o passeio,
desce a calçada,
chega à oficina
à hora marcada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga;
toca a sineta
na hora aprazada,
corre à cantina,
volta à toada,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga,
puxa que puxa,
larga que larga.
Regressa a casa
é já noite fechada.
Luísa arqueja
pela calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada,
sobe que sobe,
sobe a calçada.
Anda Luísa,
Luísa sobe,
sobe que sobe,
sobe a calçada.

Rómulo de Carvalho, vulgo António Gedeão
in Poesias Completas (1956-1967)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Lisboa, 1 de Novembro de 1755

O Terramoto de 1755 ou Terramoto de Lisboa, ocorreu no dia 1 de Novembro de 1755, resultando na destruição quase completa da cidade de Lisboa e atingindo ainda grande parte do litoral do Algarve. O sismo foi seguido de um tsunami - que se crê tenha atingido a altura de 20 metros - e de múltiplos incêndios, tendo feito certamente mais de 10 mil mortos.

Atingiu várias localidades, sendo Lisboa, Almada, Seixal e Vila Real de Santo António as mais atingidas. Hoje, ainda se festejam milagres acontecidos nesse dia, realizando-se procissões em Arrentela (Seixal) e em Cacilhas (Almada).

Imagem: Lisboa após o terramoto de 1755.

Foi um dos sismos mais mortíferos da história mundial, marcando o que alguns historiadores chamam a pré-história da Europa Moderna. Os geólogos modernos estimam que o sismo de 1755 atingiu a magnitude 9 na Escala de Richter.

O terramoto de Lisboa teve um enorme impacto político e sócio-económico na sociedade portuguesa do século XVIII, dando origem aos primeiros estudos científicos do efeito de um sismo numa área alargada, marcando assim o nascimento da moderna sismologia.

Imagem: Propagação das ondas do maremoto/tsunami com escala horária.

Lisboa foi, a par de Vila Real de Santo António, reconstruida sob alçada de Sebastião José de Carvalho e Melo - Marquês de Pombal, com uma inovadora gaiola pombalina a suster os edifícios e com o lema "enterrar os mortos e cuidar dos vivos".

No ano seguinte, no dia do primeiro aniversário do terramoto e devido à fome e pobreza, iniciou-se uma tradição hoje esquecida: o pão por Deus, onde as crianças pediam comida às portas em troca de uns versos ou duma cantiga.

Imagem: Gaiola Pombalina idealizada pelo Marquês de Pombal e que se encontra no interior das paredes dos edifícios da baixa da capital.