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quarta-feira, 1 de setembro de 2010

E Depois do Adeus

Eis uma canção, das mais belas que a Eurovisão viu concorrer, cheia de amor nas palavras e de formosura na música que acompanha o poema.
Acima de tudo, Paulo de Carvalho cantou uma canção de amor, que brilhou e que lhe deu notoriedade no último Festival da Canção da época do Estado Novo.
Um mês depois rebenta uma revolução em Lisboa que viria trazer a democracia ao cinzento país: o 25 de Abril de 1974, cuja canção serviu de senha para que as tropas iniciassem o caminho para a liberdade.
A música é do saudoso maestro José Calvário e a letra de José Niza.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Adeus (Palavras Gastas)

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já não se passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Já não temos nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.


Poema de: Eugénio de Andrade,
Canta: Simone de Oliveira